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Dicas da jornalista Thelma Torrecilha do Blog Educar e Cuidar
Introdução precoce de alimentos na dieta do bebê eleva índices de obesidade
Como é difícil encontrar informação segura, atualizada e clara sobre a introdução da alimentação complementar do bebê! Quando as meninas eram pequenas, saía do consultório do pediatra com uma lista contendo quatro grupos de alimentos e a orientação para fazer a papinha com um ou dois itens de cada grupo.
As recomendações daquele início dos anos 80 estão ultrapassadas, o tão santificado mel, por exemplo, acabou proibido para crianças menores de um ano e é uma ameaça tão nociva quanto o açúcar quando se pensa em obesidade. Eu conversei com a nutricionista Viviane Gabriela Nascimento Simon e demos muita risada lembrando que as crianças comiam banana com aveia e mel para ficarem bem fortes. Fortes e gordas! Precisava colocar mel na banana?
Realmente os tempos mudaram, mas a receita para a sopa era tão prática! Bastava pregar a listinha do pediatra na geladeira e montar a dieta da criança. Na época, morava em Mogi das Cruzes, chamado cinturão verde de São Paulo, e com base na lista de alimentos, comprava diretamente das chácaras: a cenoura arrancada da terra na minha frente, as folhas de espinafre enormes e inteirinhas, sem nenhum arranhão!
Com o Gabriel, o outro extremo: amargava a secura de Brasília e via as frutas desidratarem ou apodrecerem na fruteira, antes de amadurecer. Comprava em um hortifruti bem caro, mas as verduras eram murchas, os legumes eram amassados e ressecados e as frutas eram verdes. Além disso, a variedade era desanimadora, encontrava sempre a mesma coisa. Para piorar, os pediatras e a nutricionista que consultei pouco esclareceram.
Inconformada com a falta de orientação, resolvi buscar informações atualizadas na internet, misturei com o pouco que dava para aproveitar do pediatra e da nutricionista, temperei bem com os meus 30 anos de forno e fogão e tenho tentado criar um cardápio atraente e equilibrado para o Gabriel, grande apreciador de quase toda a pirâmide alimentar.
Conversando com a pós-doutoranda em Nutrição Viviane Gabriela Nascimento Simon, percebi que as minhas preocupações com a alimentação não são tão exageradas. Exagerados são os problemas que podem ser causados ao longo da vida da criança se ela começar comendo errado. A introdução inadequada e precoce de alimentos na dieta do bebê está sendo apontada como responsável pelo crescimento assustador da obesidade entre crianças de dois e três anos de idade.
Essa é a conclusão preliminar da pesquisadora, a partir dos primeiros dados para o seu trabalho de pós-doutorado, que está em andamento. "Existe a prevalência precoce de sobrepeso e obesidade. O obeso estava na população de alta renda e quase não se via na população de baixa renda. A gora, a obesidade já está instalada. Já é uma doença relevante, um problema de saúde pública, independente do nível socioeconômico", afirmou.
Viviane Simon concluiu que a doença está começando muito precoce, quando encontrou índice de 28,8% de obesidade entre as 447 crianças de dois até três anos e 11 meses de idade, de creches municipais de Taubaté, interior de São Paulo, pesadas para a pesquisa de "Intervenção de obesidade".
As crianças de maternal serão acompanhadas durante um ano e terão a alimentação monitorada até a nova medição de peso no final do período. "Se eu não tivesse ido lá pesar as crianças, iria duvidar do resultado. Fiquei impressionada! Começa assim, tá chupando pirulito, que bonitinho! Como é gordinha, que bonitinho! É assim que começa a obesidade", ressaltou.
A nutricionista vai estudar a alimentação dessas crianças no primeiro ano de vida. Ela acredita que o problema está aí e não na alimentação atual fornecida pela creche. "Estamos começando a estudar, estamos achando que provavelmente seja a falta de aleitamento materno e a introdução inadequada dos alimentos complementares. Esse é o problema. A gente está vendo muita criança com cinco ou seis meses que já come bolacha, quando deveria estar com aleitamento materno exclusivo", contou.
Segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde, nada deve ser oferecido ao bebê, além do leite materno, antes dos seis meses de idade. Na pesquisa para o doutorado pela Universidade de São Paulo, apresentada em 2007, Viviane mostrou que o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e o prolongamento dessa amamentação até os dois anos, protege a criança do sobrepeso e da obesidade.
O benefício para a saúde da criança é comprovado por vários trabalhos no Brasil e no exterior. Quanto maior for o período de aleitamento materno, menor é o risco de obesidade infantil. A nutricionista verificou a relação entre aleitamento materno, alimentação complementar e sobrepeso e obesidade, em 566 crianças de dois a seis anos de idade matriculadas em escolas particulares no Município de São Paulo.
Viviane Simon acha que, depois de tantas evidências de que o aleitamento materno protege a criança, está na hora de os pesquisadores se preocuparem com a transição nutricional. "Essa transição nutricional que tem hoje, epidemiológica. Hoje você não vê criança desnutrida. Nesse estudo que estou fazendo em Taubaté, encontrei menos de um por cento de desnutrido, de magreza mesmo, numa população de baixa renda", afirmou.
A interrupção do aleitamento materno exclusivo é muito cedo. Segundo ela, as mães ainda dão água e chá para crianças com "pouquíssimos" dias de vida. Um costume que era comum antigamente. "O meu professor é pediatra e diz que deve ter contribuído muito para esses obesos de hoje. Ele pedia para dar água e chá, e ainda mandava colocar engrossante na mamadeira...", brincou
As minhas filhas foram criadas assim. Ma será que todas as mães sabem que hoje em dia isso não tem cabimento? Fiz uma pesquisa no Google com engrossante, apareceu um monte de mãe falando que usa...
Viviane disse que a pesquisa na cidade de Taubaté está mostrando que as mães das crianças trabalham e compram comida sem qualidade, como salgadinho e outras guloseimas que são mais baratas e acabam engordando a criança. Segundo ela, a quantidade de alimento parece estar satisfatória para que elas cresçam, pois não foram encontrados problemas com a estatura e sim com o ganho de peso.
"A gente tem que considerar que a obesidade é uma doença multifatorial: tem fator genético e fator de ambiente. Aquela criança pode ter mamado os 24 meses, como recomenda a Organização Mundial da Saúde, mas tem um pai ou uma mãe obesa, já tem um fator genético que vai contribuir. E tem o fator ambiental: se ela tem um pai e uma mãe que comem dois, três pacotes de bolacha assistindo à televisão, a criança também vai fazer a mesma coisa", criticou.
O leite materno só tem valor nutricional até os seis meses de vida. Depois, já não atende às necessidades da criança e outros alimentos precisam ser introduzidos para completar a alimentação porque a velocidade de crescimento da criança nessa fase é muito grande. Segundo ela, faltam pesquisas no Brasil e no mundo sobre a introdução de alimentos complementares e são "pouquíssimos" os artigos científicos publicados sobre o assunto.
"Ninguém fala com seis meses come cenoura, com oito meses come feijão. Não existe recomendação na introdução. É com isso que a gente tem que tomar cuidado. A comida da irmã mais velha é bolacha à tarde, aí o pequenininho vai lá comer. A preocupação com alimentação complementar é nula, ninguém se preocupa. E que hora que eu vou introduzir um arroz, quando que eu vou introduzir um feijão. A impressão é que até os seis meses, ela tem que ficar em aleitamento materno exclusivo, quando ela completou seis meses e um dia, já pode comer o que quiser", reclamou.
Viviane Simon também criticou a introdução precoce da criança na dieta da família, sem restrições, e chamou a atenção para o cuidado com a quantidade que se oferece em cada idade. Segundo ela, muitas mães fazem o prato para um bebê como se fosse para um adulto. "Isso, no primeiro ano de vida, é muito perigoso. A criança nasce com o mecanismo de auto-regulação. Quando está mamando no peito, a criança larga, está satisfeita, não quer mais. E quando a mãe começa a produzir os alimentos, a mãe entucha e a criança vai abrindo a boca. E isso vai fazendo a criança perder aquele mecanismo. E cada vez ela vai querer mais, aí você cria os obesinhos!", afirmou.
Segundo Viviane, o que leva ao desmame é água, chá, leite não-materno e fruta. Mas fiquei impressionada com os alimentos que estão sendo dados para crianças de seis meses, como mostrou a pesquisa realizada em escolas particulares de São Paulo. Verificou-se a introdução precoce de açúcar e mel, e de alimentos que contêm açúcar, como chocolate, achocolatado, espessantes, iogurte, bolacha e guloseimas.
O interessante é que além do nível socioeconômico alto, com renda de 6.500 reais por mês, a escolaridade das mães era alta, ensino superior e pós-graduação! Mas os pais de nível socioeconômico alto são fator de risco. "Porque ele não se preocupa tanto com o fato de ser obeso. A mãe se preocupa com ela então se preocupa com o filho", disse.
Enfim, o que você consegue com o aleitamento exclusivo até os seis meses e uma alimentação complementar adequada, com alimentos nutritivos e livres de açúcar e gordura? "Um crescimento e desenvolvimento adequado. A criança cresce em estatura, cresce em peso, mas de acordo com a sua idade. Você cria hábitos saudáveis na criança e isso pode durar a vida inteira", resumiu.
E nunca é demais relembrar os benefícios do aleitamento materno, além da proteção contra a obesidade e o sobrepeso: "O leite materno é o único que protege a criança, que confere um fator de imunidade maior, o único que tem imunoglobulina A; é o único que ajuda no desenvolvimento geral e neurológico da criança; é nutricionalmente superior a qualquer outro; é bacteriologicamente seguro porque está sempre fresco e não precisa armazenar; fornece antiinfecciosos e antiinflamatórios, proteção contra infecção gastrointestinal e respiratória, fora os benefícios emocionais de ligação mãe e filho", lembrou.
Viviane Gabriela Nascimento Simon é pós-doutoranda em Nutrição pelo Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - USP
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