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Blog da jornalista Thelma Torrecilha
Melhor do que ver, é brincar com o Backyardigans
Quando estava organizando a festa de um ano do Gabriel, uma amiga disse que a decoração do Backyardigans da empresa que eu estava contratando era linda. “Backy o quê?!” Demorei a entender o nome do programa mesmo com a “aula” dessa minha amiga sobre o assunto. Ela entendia tudo de Backyardigans, paixão da neta Manuela.
Com essa história de ter filho com idade para ser avó, demoro um pouco mais do que as jovens mães para descobrir e incorporar as novidades. E a festinha do Gabriel foi com decoração da Turma da Mônica, velha conhecida dos pais dele.
Mas o caçulinha da mamãe começou a desvendar o mundo da TV por assinatura com um ano de idade. Mais precisamente, começou a assistir a alguma coisa do Discovery Kids.
Quando ele tinha um ano e meio, a Nara resolveu aproveitar a paixão pelo Backyardigans para preparar a audição dele para o inglês. Criada em um ambiente quase xenófobo, ouvindo só MPB em casa, ela foi obrigada a correr para compensar o prejuízo e não quer o mesmo destino para o irmão.
O Gabriel ainda não vê televisão diariamente, mas o tempo dedicado à programação da TV e aos DVDs vem aumentando. É incrível como ele percebia o horário do Backyardigans. Perto das 17h30, falava “qué vê Backy”. Como tem dormido quando volta da escola, acaba perdendo. Se acorda pedindo, coloco o DVD.
Ele é capaz de falar das histórias de episódios que viu pela primeira vez e reproduz com os carrinhos e bonecos trechos das aventuras dos Backyardigans. Até um fio de macarrão no prato vira o "minhoco". Quem é o minhoco? É aquele dos bolinhos que a Uniqua estava fazendo quando o Pablo bateu na porta e a Tasha abriu...
Hoje em dia, eu adoro o Backyardigans! Fiquei toda contente quando completei a coleção de bonecos que comprei na 25 de Março. Lá, também encontrei máscaras de papel e cartelas de adesivos, foi uma festa danada com o Gabriel. Ele tem meias, camiseta e pantufas do Austin e do Tyrone. E, claro, esse ano faz sentido, a festa está contrata, com a decoração do Backyardigans!
Conversei com a fonoaudióloga Flavia Benevides Foz sobre a febre dos Backyardigans entre as crianças pequenas. Meninos e meninas conhecem os personagens e reagem com alegria quando encontram essas figuras tão íntimas em versões de pelúcia, borracha, madeira, papel, plástico...
Ela atribui o sucesso do programa infantil aos produtos relacionados ao desenho animado e acha que as crianças gostam mais de brincar com as coisas do Backyardigans do que de assistir às aventuras pela televisão.
“Não é só a TV. Tem todo um entorno em função dos mesmos personagens. A repetição acaba favorecendo o aprendizado. Você tem os brinquedinhos, o livrinho, tudo isso é um reforço. Se a televisão estivesse só ela, isolada, a gente não teria todo esse universo Backyardigans. E todo esse universo Backyardigans, sem interação, não existiria o aprendizado. E acho isso uma coisa interessante para alertar os pais: que é essa vivência, essa continuidade, essa interação que faz a coisa acontecer”.
Segundo ela, os programas dirigidos para faixa de dois a quatro anos de idade se aproveitam dos aspectos que ajudam a criança a desenvolver os simbolismos justamente quando ela está preparada para cumprir naturalmente essa etapa do desenvolvimento infantil. “Eles batem na mesma tecla, são repetitivos, previsíveis e trabalham sempre uma coisa muito concreta. Em geral, as crianças vão resgatar isso e imitar”.
A fonoaudióloga explicou que as crianças são capazes de narrar histórias apenas por volta dos quatro anos de idade. “O bebê tem poucos ganhos com a TV. Ele tem um tempo de atenção muito curto, ainda não tem uma representação simbólica do mundo para compreender narrativas ou situações que aparecem na tela, mesmo sendo muito concreta. Isso vai começar a aparecer depois dos dois anos, quando a criança já adquiriu um pouco dessa habilidade linguística e começa a tentar representar o mundo internamente. Mas ela vai ter um ganho muito maior por volta dos quatro. Ela consegue ver, concretizar e lembrar depois”.
Antes disso, segundo ela, as crianças respondem quando são questionadas sobre detalhes das aventuras vividas pelos personagens por que existe uma coerência no enredo que é repetido. Mas é a interação provocada pela família e o interesse dispensado pelos pais para o momento de assistir à televisão que motivam a criança a dar uma resposta.
“É esse jogo que faz a criança desenvolver. Uma criança da mesma idade, que a mãe liga a televisão e deixa assistindo, que não tem essa continuidade, provavelmente não vai ter esse vocabulário, esse desempenho”.
Para explicar a necessidade da criança de ter uma companhia diante da TV, Flávia Foz comparou com o comportamento dos adultos ao comentarem o filme quando saem do cinema. “Ela precisa ser um interlocutor. A gente sabe que é muito cômodo, a mãe tem um monte de coisa pra fazer, liga a TV e some. Isso não é legal”.
A fonoaudióloga disse que a intervenção e a continuidade estão presentes em alguns programas educativos voltados para crianças maiores, mas insiste que, ainda assim, o aproveitamento é reduzido quando a criança fica sozinha.
“Essa interatividade faz muito sucesso com os pré-escolares. Eles propõem interatividade: fazem perguntas e dão um tempo para a criança responder. É uma graça você ver. Esse é um programa educativo interessante para criança de pré-escola. Ela sai dessa posição passiva pelo próprio conteúdo inteligente do programa, mas isso não dispensa um pai do lado, uma mãe, alguém que esteja junto para compartilhar toda essa situação rica de linguagem”.
Programa bilíngue
Flavia Foz disse que a expectativa da família quando coloca um DVD em inglês não deve ser a de ensinar o idioma para a criança. Ela realmente pode aproveitar todas as informações relacionadas ao desenho para acompanhar a história sem o domínio da língua. “O visual, a repetição das cenas, ele já tem um conhecimento prévio, já teve a sua interação, então, já tem uma expectativa sobre o que esperar. E a língua está sendo subliminar”.
Segundo ela, o aprendizado de um segundo idioma antes dos quatro anos de idade só é aconselhável em uma casa bilíngue. Só neste caso, as crianças têm um aproveitamento linguístico das informações. Mas o estímulo auditivo de uma língua estrangeira nos primeiros anos de vida, quando a criança está formando no cérebro a imagem mental dos fonemas funciona como preparo de um terreno para o aprendizado no futuro.
“Se o inglês está muito pontuado a alguns filminhos e musiquinhas esporádicas, linguisticamente não há um aproveitamento, mas a criança está tendo um estímulo auditivo com relação às diferenças dos fonemas, que pode ser importante quando ela for aprender o inglês”.
Flávia Benevides Foz é fonoaudióloga, doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, especialista em linguagem pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia e professora do CEFAC – saúde e educação.
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